sexta-feira, 26 de abril de 2013

Eu também amo você.




Seus lábios se abrem para proclamar palavras que lhe escapam ao vento. Seus princípios enfraquecidos lhe cobram uma atitude; cobram-lhe um movimento que mostre ao homem a sua frente que esta tudo bem, que você irá ficar bem, mas esta é uma preposição incerta demais para ser pronunciada. 

Os ouvidos tentam entender as palavras que lhe são proferidas. Sua mente se força a acompanhar os acontecimentos na medida em que se desenvolvem. Mas o universo parece parar para assisti-la morrer. Nada se move. Tudo a sua volta torna-se turvo e insignificante.

Os olhos pesam e o coração já bate fraco. De tanto que bateu a vida inteira. De tanto chorar amor e fracassos. De tanto sofrer pelas decepções que lhe assombram os sonhos. E este mesmo coração que antes fora despedaçado e sangrara por dentro no silêncio de sua consciência, agora jorra o mesmo liquido viscoso e avermelhado para fora. A ferida tornara-se real.

Sua mão se ergue na tentativa de tocá-lo, mas embora tão perto, o homem parece longe demais para que ela possa alcança-lo. Podia sentir uma das mãos dele ao lado de seu corpo, enquanto a outra apoiava sua nuca para mantê-la erguida; obrigar seus olhos a focarem-se nos dele. Desejara poder senti-lo mais uma vez. Uma voz soa no seu ouvido lhe lembrando de todas as pessoas que a amavam e que ela deixaria para trás. E essa voz não a deixa esquecer a dor que causará nos seres que lhe importam. Só para confirmar ainda mais seu sofrimento, a mesma voz diz que a ama. Não, ela nunca ouvira isso dele antes. Não era uma lembrança. Estava acontecendo, aqui, agora. Era o som que lhe soara anteriormente, implorando para que ficasse, para que não fosse embora. A mesma voz. A mesma pessoa. Para ela, a única pessoa. 

De repente, tudo que não sentira antes, se apossa de seu corpo, ocupando cada pequeno milímetro. Sente o calor de mãos masculinas ao mesmo tempo em que um frio faz seu corpo tremer descontroladamente. Sente a dor rasgar seus músculos. Sente uma vontade louca de gritar, mesmo que a voz esteja lhe faltando. E, por fim, sente-se cansada. Cansada de tudo. Sua mente novamente lhe cobra alguma coisa; qualquer coisa. Mas seu corpo e alma optam por desistir. Seus olhos se fecham, sua cabeça pende para trás sobre a mão firme do parceiro. Ele não consegue mais mantê-la erguida. Ele não consegue mais mantê-la vida. A imagem do homem se desfoca a sua frente e uma lágrima escorre pelo canto de seus olhos, sem que sequer perceba estar chorando. E ela adentrara a escuridão, tornando-se apenas um dos tantos vultos que padecem a noite. Torna-se o mártir do silêncio, sendo ocultado somente pela própria voz que repete em seu ouvido: Eu também amo você.

O fim de sua dor.

"O Suicida, mesmo aquele que planeja sua morte, não quer realmente matar a si próprio, e sim a sua dor." - Augusto Cury 

Já era tarde quando os olhos cansados se abriram. As paredes brancas ainda pareciam desfocadas a sua frente. Sua cabeça lateja. Tentando fugir do contato com a luz, seus olhos buscaram um ponto incerto para fitar. Assim que encontraram a fachada de metal da mesinha, no canto do quarto, o coração já inquieto pareceu responder a imagem deprimente que ela expressava, afugentando-se contra o peito. Os traços iluminados pela forte lâmpada, que vez ou outra piscava contra seu rosto, formavam uma face cansada e enferma. Percebeu então, que nem fingir conseguiria mais. Seu rosto denunciava todo o sofrimento contido; a frustração acumulada. 

Um relâmpago iluminou a escuridão sombria daquele quarto. Do lado de fora, a forte chuva inundava a pequena cidade. As cortinas balançavam-se agitadas com o vento, enquanto os galhos da árvore batiam repetidamente nas janelas que o cercavam. Era mais uma noite em que o sono se perdia. Virou seu rosto para fitar a cadeira de rodas que o acompanhara metade de sua vida. Aquela que, além de sua companheira, havia se tornado a mais cruel lembrança de sua existência, e do tamanho do fardo que era para as pessoas que mais amava. Parou por um momento para pensar em sua mãe, dormindo tranquilamente no quarto ao lado. Com a idade que se abatia e a doença a consumindo, seu físico não aguentaria por tanto tempo. Sua mãe, que tanto lutara contra os obstáculos da vida e sempre vencera de cabeça erguida, morreria de uma forma tão cruelmente aplicada pelo destino. Já ele, nem para se matar prestava. O quão injusto isto soava?

Querendo se desviar daqueles pensamentos, esticou seu braço para alcançar o controle remoto e ligou a televisão. Os olhos que há pouco ainda encontravam-se embaçados, logo despertaram ao focar na cena. Sentiu seus pulmões respirarem aliviados, esperançosos. Talvez ali houvesse uma saída para ele. 

x.x.x

Era quatro horas da tarde e Madalena deleitava-se em um sono profundo para descansar dos afazeres do dia. Henrique parou na frente do banheiro, olhando fixamente para a porta. Suas mãos tremiam e a angustia de deixar sua pobre mãe para trás o perturbava. Porém, seria o fim para sua dor. Seria até mesmo, um descanso para sua mãe. Ele precisava se convencer de que aquilo era o certo a se fazer. 

Adentrou o local, deixando que as cenas vistas na televisão iluminassem sua mente. Usando a barra de apoio, impulsionou seu corpo para se levantar, sentando-se no acento logo em seguida. Puxou cuidadosamente o cordão de seu calção e pegou as chaves da casa de seu bolso. Tirou uma por uma, deixando que restasse apenas o circulo de metal que as unia. Passou o cordão por ele, pondo calmamente em volta de seu pescoço, e amarrando a outra ponta em sua barra de apoio. Segurou-o firme e forte,  fechando os olhos. Aquela era a hora. Suas mãos suavam e tremiam, enquanto as lágrimas do desespero desciam uma a uma por sua face cansada. As dúvidas ainda atormentavam seus pensamentos. 

Em um impulso, rezou internamente para que sua família o perdoasse. Abriu os olhos e se jogou ao chão, que mesmo não sendo longe de onde estava, bastou para apertar o cordão em seu pescoço. Sentiu a dor invadi-lo e seus pulmões clamando desesperados por um ar que agora não viria mais. Segundos intermináveis se passaram, até que seu organismo deixou-se levar. A luta, antes travada por instinto, simplesmente acabara. O corpo parou de se sacudir e os olhos - ainda abertos - não mais vida transpareciam. Seu desejo tão íntimo fora realizado, e sua dor, finalmente, chegara ao fim. 

  Fim. 

N/A: Henrique, mais conhecido como Rica, se matou no banheiro de sua casa, enquanto sua mãe dormia, nesta sexta-feira, dia 04 de Dezembro de 2009. Toda minha vida acompanhei a dor e a vontade que ele tinha da morte. Ouvi seus relatos, suas insanidades. Hoje, ouço por sua irmã o que aconteceu. A vontade que sempre demonstrou ter de tirar sua vida, foi concretizada após assistir uma cena do seriado de televisão CSI, enquanto Madalena dormia no quarto lado. É triste, me dói o coração. Sentirei falta deste amigo tão querido e, embora alguns achem meio macabro, escrever essa cena, descrevendo o que aconteceu, imaginando o que deve ter lhe passado pela cabeça, me faz sentir o que ele sentiu, tentar entender. Como seu eu estivesse lá. Me faz pensar se eu poderia ter ajudado, se sou egoísta por querê-lo aqui, junto a nós, enquanto tanto ele sofria. Rica, não importa o que, você sempre estará no meu coração. Vá com Deus, amigo.