Seus lábios se abrem para proclamar palavras que lhe escapam ao vento. Seus princípios enfraquecidos lhe cobram uma atitude; cobram-lhe um movimento que mostre ao homem a sua frente que esta tudo bem, que você irá ficar bem, mas esta é uma preposição incerta demais para ser pronunciada.
Os ouvidos tentam entender as palavras que lhe são proferidas. Sua mente se força a acompanhar os acontecimentos na medida em que se desenvolvem. Mas o universo parece parar para assisti-la morrer. Nada se move. Tudo a sua volta torna-se turvo e insignificante.
Os olhos pesam e o coração já bate fraco. De tanto que bateu a vida inteira. De tanto chorar amor e fracassos. De tanto sofrer pelas decepções que lhe assombram os sonhos. E este mesmo coração que antes fora despedaçado e sangrara por dentro no silêncio de sua consciência, agora jorra o mesmo liquido viscoso e avermelhado para fora. A ferida tornara-se real.
Sua mão se ergue na tentativa de tocá-lo, mas embora tão perto, o homem parece longe demais para que ela possa alcança-lo. Podia sentir uma das mãos dele ao lado de seu corpo, enquanto a outra apoiava sua nuca para mantê-la erguida; obrigar seus olhos a focarem-se nos dele. Desejara poder senti-lo mais uma vez. Uma voz soa no seu ouvido lhe lembrando de todas as pessoas que a amavam e que ela deixaria para trás. E essa voz não a deixa esquecer a dor que causará nos seres que lhe importam. Só para confirmar ainda mais seu sofrimento, a mesma voz diz que a ama. Não, ela nunca ouvira isso dele antes. Não era uma lembrança. Estava acontecendo, aqui, agora. Era o som que lhe soara anteriormente, implorando para que ficasse, para que não fosse embora. A mesma voz. A mesma pessoa. Para ela, a única pessoa.
De repente, tudo que não sentira antes, se apossa de seu corpo, ocupando cada pequeno milímetro. Sente o calor de mãos masculinas ao mesmo tempo em que um frio faz seu corpo tremer descontroladamente. Sente a dor rasgar seus músculos. Sente uma vontade louca de gritar, mesmo que a voz esteja lhe faltando. E, por fim, sente-se cansada. Cansada de tudo. Sua mente novamente lhe cobra alguma coisa; qualquer coisa. Mas seu corpo e alma optam por desistir. Seus olhos se fecham, sua cabeça pende para trás sobre a mão firme do parceiro. Ele não consegue mais mantê-la erguida. Ele não consegue mais mantê-la vida. A imagem do homem se desfoca a sua frente e uma lágrima escorre pelo canto de seus olhos, sem que sequer perceba estar chorando. E ela adentrara a escuridão, tornando-se apenas um dos tantos vultos que padecem a noite. Torna-se o mártir do silêncio, sendo ocultado somente pela própria voz que repete em seu ouvido: Eu também amo você.